Quem te viu, Quem te vê


Quem te viu, Quem te vê

Orlando Lisboa de Almeida (escrito antes do advento do Metrô)

Eu me lembro dele desde criança e não poderia ser de outra forma porque era um engenho fascinante! Era um trem enorme, vagões novinhos, tudo inoxidável. Brilhava muito e rodava macio. Tudo no trem tinha certa ordem. Até o pessoal da estação que orientava o tráfego, sempre fardado, cabelo aparado, quepe azul marinho, tudo certinho. Os horários dos trens eram cumpridos com rigor e o povo era calmo, apesar de já haver movimento na metrópole São Paulo de algumas décadas atrás. Hoje tudo está mudado: os passageiros aumentaram como praga de gafanhotos; brota gente de todo lado. Gente que tem pressa, que desconfia de tudo e de todos, gente que trabalha, ama e sofre. Numa cidade cheia de semáforos, por mais vagaroso que seja o trem, ainda é o meio de transporte mais rápido do local. Não há outro jeito de se locomover, enquanto não implantarem o metrô; tem que ser de trem. Os trens ainda são os mesmos de muitos anos atrás, já desgastados pelo uso intenso. Os alto falantes internos que anunciavam a próxima estação já estão mudos. Os bancos estofados foram tantas vezes furados por pessoas de pouca presença de espírito, que foram substituídos por bancos de resina sintética sem estofado. As janelas, antes de vidro, após tantas depredações foram substituídas por acrílicos transparentes, que o pessoal rabisca sem dó. Verdadeiras tatuagens de mau gosto nos bancos e janelas, com adjetivos depreciativos ao chefe, com o nome da amada, com os corações flexados por Cupido...

 O dorso do trem não brilha mais, tanta a poeira da poluição que já formou uma crosta em cima dele, tornando-o pardo, seboso, feio e triste. Atrasa muito e a maior sinfonia de úlceras da metrópole progride a passos largos. O pai de família que já passou dos quarenta e não tem profissão definida sabe que o trem atrasa, mas o relógio do patrão é pontual e não perdoa. Se chegar atrasado, perde o emprego, que passará a ser ocupado por outro braçal talvez mais jovem e taludo. Só não sabe onde encontrar outro emprego para poder descolar o pão de cada dia para sua família. Uma cachacinha de vez em quando se torna uma franca necessidade para espantar essa bruxa da ameaça do desemprego. Todo mundo viaja, ninguém se conversa, todos desconfiam de todos. No trem apinhado de gente, cada um se apoiando no outro, quase todos em pé, não cabe nem pensamento mais no vagão. Há, mesmo assim, os malabaristas que conseguem a proeza de sacar um livro e, braços erguidos e olhos para cima, tentam arranjar jeito para uma leiturinha. 

Outros pretensiosos, quando conseguem o privilégio de sentar, tentam abrir um jornal especializado em submundo do crime; crime e futebol. As manchetes do jornal dos crimes chamam a atenção da galera toda em volta. Mesmo para quem não sabe ler, resta aquela foto feminina, muita forma e pouca roupa, em evidência na primeira página. O corpo nu é o produto para ajudar a vender o jornal, afinal estamos no mundo capitalista. Há algumas senhoras que teimam em sacar da bolsa o crochê para tentar passar o tempo e driblar a ansiedade. Decididamente a mulher está abrindo caminho mesmo às cotoveladas, para ao menos participar da população economicamente ativa. Quem vai indo, quem vem vindo, ninguém sabe. 

Seja dia, seja noite, o movimento é intenso já que as máquinas das indústrias funcionam sem parada e os empregados se revezam em três turnos. Uns cochilam no trem e passam direto pela sua estação e aí a coisa se complica se for alta hora da noite ou franca madrugada. Pode acontecer de acordar no fim da linha, quando vem o guarda batendo as portas dos vagões, fazendo barulho e avisando que o trem está se recolhendo... Outros formam grupinhos e jogam palito com moeda que, afinal, tem alguma serventia. Gritam os palpites e riem dos perdedores, os patos do jogo. E olha que precisa de barulho para ser ouvido dentro do trem de aço que circula cambaleante sobre trilhos também de aço. Todos do vagão acompanham o resultado do jogo, queiram ou não... Tem muita gente que consegue paquerar nessas viagens com paradas freqüentes; paquerar e até se amarrar para sempre em certos casos. A cada cinco minutos, parada numa estação, quando as portas se abrem e um mundo de gente tenta subir e descer ao mesmo tempo às trombadas, palavrões, empurrões, safanões e até alguns pedidos de desculpas! E o trem persiste...

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Sobre Alex Mauá

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