Memórias de um povo: Druvina Meirinho Ferreira


Mauá a Memória de um povo:  Druvina Meirinho Ferreira
Colunista: Severino Correia Dias


Os anos 20 do século passado foram muito importantes para Pilar. Na região que pertencia a São Bernardo do Campo não se  falava em separação, nem em emancipação. O grande assunto da época era a chegada da iluminação pública em Pilar. Nesse contexto, o prefeito de São Bernardo do Campo no qual Pilar estava subordinado era o Coronel Saladino Cardoso Franco. Por força da lei 246, de 10 de fevereiro, assinou contrato com a The São Paulo Tramway Light and Power Company Limited para a iluminação pública nas ruas adjacentes à estação. Aos sábados e domingos era um divertimento na estação, a chegada do trem das 19h30min da noite. A estação iluminada atraia jovens namorados e assim os galanteios, formando um ponto de encontro entre amigos. O bom era ver o vai e vem das pessoas chegando para casa, era uma das diversões daquele momento. As fábricas já faziam parte da economia local, mas os impostos pagos eram destinados  para São Bernardo do Campo. Entre as primeiras empresas podemos citar a Sebastião Brisanti & Lippi (artefatos de cantaria), fundada em 1 de janeiro de 1926 no bairro do Itapeva, na cidade.
Em 1926, quando Pilar torna-se Mauá, os prédios eram poucos, média de 26, sendo  a maior parte espalhada próxima à estação ferroviária e ao longo da Estrada das Pedreiras, hoje Avenida Barão de Mauá. Era uma cidade de poucos loteamentos e muitos espaços vazios. Mauá rural dos sítios de subsistências familiares, pedreiras, fábricas, olarias e terras muitas terras. Era esta a geografia de Mauá. Famílias inteiras vindas do Oeste Paulista dos cafezais (Campinas, Limeira Bragança Paulista e Amparo), e de outras regiões de São Paulo aspiravam novas expectativas de vida. 

Após a I Guerra Mundial (1914/1918), iniciou-se um novo período de forte atração imigratória, com picos entre 1926 e 1929. Europeus, entre os quais o português,  perceberam no Brasil as possibilidades de melhorias de vida. Além desses vieram também espanhóis, italianos, alemães, japoneses. Com o passar do tempo são estes grupos que irão forjar as características sociais. Em Mauá não foi diferente.

Entre os português que se fixaram em Pilar devemos destacar  José Joaquim Meirinho, que chegou no ano de 1924. Sua esposa era Maria José de Carvalho que juntamente com seus dois filhos Abel e Querubina desembarcaram em Santos. O local escolhido foi o bairro afastado de São Bernardo do Campo, Pilar na época.  Vale lembrar que o sobrenome Meirinho de origem em portuguesa está relacionado a uma atividade desenvolvida na Idade Média é o quê conhecemos como oficial e justiça hoje. 

A função que o patriarca da família Meirinho vai desenvolver é a de escarpelino, ou cortador de pedra, muito comum na região. A jornada era de 8 horas com  intervalo de 1 para o almoço. O salário era baseado na produção de paralelepípedo, no qual o trabalhador tinha que produzir uma média de 2.5000 unidades por mês. E é literalmente cortando pedras em Pilar, que o português José Joaquim Meirinho mantinha o sustento de sua família.

O ano de 1926 marcou a vida dos Meirinhos, pois naquele ano foi um momento de muita alegria para todos. Enquanto famílias inteiras festejavam a luz elétrica em Mauá (Pilar), os meirinhos comemoravam em 27 de Setembro daquele ano o nascimento da terceira filha do casal, José e Maria, Druvina Meirinho Ferreira. A menina nasceu na casa da família  na Avenida Capitão João numero 1537. A casa ainda resiste ao tempo, e apesar de algumas décadas, ainda mantém as características do período.  

 Druvina crescia rodeada de amor e carinho pelos seus pais. Mas como nesta vida nem tudo são flores, uma explosão na pedreira fez com que o pai se acidentasse. Foi um momento difícil para a família, pois seu José perde os dentes da frente. Acidentes eram comuns, muitos morriam ou fiavam impossibilitados de trabalhar ou até mesmo ficavam cegos por causa da profissão que exerciam. Mas a família de Druvina não se abate, e seu José mais uma vez procura o sustento da família, agora como pedreiro.   Seu primeiro trabalho, foi no cemitério de Mauá no bairro da Vila Vitória. Segundo sua neta Maria de Fátima foi seu avô que construiu o muro do cemitério, que está até hoje, e relembra a obra do avô.

O filho de Sr. José, Abel é transferido para Lapa onde desenvolveu a atividade de manobrista. Druvina com apenas oito anos de idade deixa sua cidade natal. Seus amigos, seus estudos. Tudo será nova para esta mauaense e segue para São Paulo. Mas a saudade faz com que Druvina retorne às suas origens. Foram longos 28 anos de ausência de sua terra. O tempo passou e Druvina casou-se com Manoel Português, e com esta união nasceram três filhos: Mário, Maria de Fátima e Marilza.

Uma das intenções de Druvina era a de  encontrar uma antiga amiguinha de escola. A escola a qual Druvina se refere era a da paineira. A “Escola da Paineira”, segundo o professor e historiador Renato Alencar Dotta foi construída possivelmente em fins do século XIX (19), passou a abrigar a partir de 1935 o Grupo Escolar de Mauá que, em 1947,tornou-se o grupo Escolar Visconde de Mauá. É interessante que é no exato momento, ou seja, em 1935 Druvina então com oito anos de idade  é uma das primeiras alunas da instituição de ensino público em Pilar Grupo Escolar de Mauá. 

Nesse ano de 1935 Druvina vai residir em São Paulo com seus pais. Deixando assim saudade de sua amiguinha que se chamava Antônia a mesma tinha um apelido carinhoso “Nica”. Nica como era chamada carinhosamente era irmã do José Mauro Lacava, que um pouco tempo faria parte da política da cidade. Druvina o conhecia por Juca, eram amigos.

Os Lacava chegaram a Pilar no ano de 1922, antes viveram em  Santo André, na Vila Assunção. José Mauro Lacava foi político. Nas eleições de 3 de Outubro de 1954, seu partido, o Social Progressista (PSP), elegeu três vereadores e ele ficou em primeiro lugar  na legendas,com 102 votos. No ano de 1958 é reeleito vereador com 128 votos. Em 1962 torna-se vice-prefeito da cidade pelo PDC, com 2.681 votos. Foi prefeito em Mauá. José Lacava foi duas vezes presidente da Câmara Municipal. 
Mais tarde, Druvina encontra Juca (Mauro Lacava) seu amigo de infância. A alegria tomou conta do momento, mais uma vez Druvina voltou a ser “criança” naquele momento. Porém Mauro Lacava falece em 27 de Julho de 1983 com idade de 63 anos.

José Joaquim Meirinho o pai de Druvina fez de tudo, trabalhou na fábrica de fogos em Mauá juntamente com seu filho Abel. Um pouco tempo depois, José vai trabalhar na estrada de ferro da cidade. Druvina levava a marmita para seu pai. José tinha uma horta de legumes, que despachava para Cubatão, Santos e cidades circunvizinhas. Foi vendedor de bananas nas ruas de Mauá. Mas um acontecimento marcou a vida dos meirinhos, José desaparece sem explicações para família. Foi no ano de 1953. As filhas procuraram nas rádios fizeram de tudo para encontrar o pai. Passados justos 60 anos de seu desaparecimento Druvina, Querubina lembra do pai.

Hoje dos três filhos de José o cortador de pedra, pedreiro, operário, lavrador, dono de casa e construtor do muro do primeiro cemitério da cidade, só Querubina e Druvina, estão vivas. Querubina com seus 92 anos faz parte da história do Mauá rural, quando criança chegou com seus pais,e junto com esperança para uma vida melhor. Druvina ainda nostálgica em sua terra natal. Ela teve papel importante na cidade no ano de 1987 pois fez parte da diretoria dos aposentados e pensionistas de Mauá. Foram 23 anos de serviços prestados. Hoje relembra com saudade momentos que não saem de sua memória. 

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Sobre Alex Mauá

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