D. Ana Augusta de Souza ou Ana da Terra: um exemplo de luta...


Por William Puntschart

Por ocasião do V Congresso de História da Região do grande ABC, realizado em Mauá no ano de 1998, tivemos a oportunidade de entrevistar D. Ana Augusta de Souza, simpática senhora de oitenta anos, já falecida, então moradora no Parque das Américas, cujo princípio de defesa da terra para todos  que nela trabalham ainda defendia.

Na verdade, o seu interesse pela questão fundiária foi fruto de sua história: de sua história de vida. Isto porque deste sua infância sofria com a expansão do latifúndio improdutivo. Conforme seu relato, ainda menina, após a morte do pai, foi obrigada a abandonar, juntamente com a mãe, o único pedaço de terra que a família cultivava, na condição de meeiros, no interior de Minas Gerais. Da longa viagem para São Paulo, guarda o sabor do pão com mortadela tantas vezes oferecido pelo governo populista de Getúlio Vargas.

Em Marília, por volta de 1940, casou-se com João Alves Santa Rosa, lavrador na cidade. Contudo, devido a morte do marido, novamente D. Ana é obrigada a abandonar a propriedade, pois, na época, não havia nenhuma garantia jurídica que amparasse os empregados e pequenos trabalhadores rurais. Com a filha recém-nascida, D. Ana passou a residir em Tupã, onde trabalhou como empregada doméstica. Nessa ocasião, casou-se novamente com Dario Antonio de Paula, sitiante local integrado ao cultivo e venda de verduras, além de militar no Partido Comunista Brasileiro.

Porém com a decretação da clandestinidade do velho “partidão”, Dario e outros simpatizantes da causa marxista passaram a sofrer perseguições políticas, a tal ponto que seu sitio foi cercado pela policia numa perseguição militar que causou a morte de três comunistas e um soldado. Este episódio, ainda pouco estudado pela historiografia, ficou conhecido como a chacina de Tupã. A partir de então, D. Ana e a filha Maria Alves de Souza só reencontram Dario após dez anos. Quando isto ocorre, passam a residir no ABC, mais precisamente, no Parque das Américas em Mauá.

A essa altura, D. Ana passaria a intensificar sua militância política, em defesa da vida e pela Reforma Agrária, tendo, porém, como princípio a paz entre os homens. Essa premissa deve-se, em parte, ao contato que, durante anos, manteve com o padre Mahum, respeitado pároco local, atuante na década de 1970. Graças a seu incentivo, D. Ana, demais donas de casa e tantos outros personagens anônimos, obtiveram importantes conquistas sociais no Parque das Américas. Por exemplo, combateram com sucesso um surto de meningite que se alastrava pelo bairro, que culminou com a criação do Posto de Saúde local; estiveram a frente do movimento contra a carestia e, ainda, alcançaram junto as autoridades a edificação da estação do Guapituba com a qual romperam com o triste ciclo de mortes causado pela travessia da extinta Parada 48. Aliás, em memória aos transeuntes que ali morreram, foi erigida uma cruz que se encontra atualmente a Igreja D. Oscar Romero.
Por fim, vale ressaltar que o exemplo de D. Ana, assim como o de tantos trabalhadores rurais e pequenos sitiantes despossuídos de escritura de suas propriedades têm muito a nos ensinar sobre História do Brasil. Principalmente com relação a estrutura fundiária nacional, importante questão que historicamente tem sido tratada de forma inábil pelas autoridades. Basta lembrarmos, por exemplo, que as primeiras diretrizes  jurídicas relativas ao campo só foram traçadas em 1850, com a decretação da Lei de Terras pelo governo Imperial.


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Sobre Alex Mauá

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