Edson Bueno de Camargo, Uma vida dedicada a Cultura em Mauá


Edson, foi um grande e ativo colaborador deste site e nos deixou no final do ano passado, conheça aqui um pouco de sua história e da sua relação com a cidade de Mauá, um grande agitador cultural da cidade que vai fazer falta.

Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André - SP, em 24 de julho de 1962,  morou em Mauá – SP. Casado com a professora de arte e fotógrafa Cecília Camargo, pai da professora de arte, artista plástica e artesã Sarah Helena. 

Foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica”.  Terminou o ensino médio em uma escola do Estado no período noturno. Começou faculdades várias vezes, que não terminou. Frequentador assíduo de oficinas literárias, formou-se em Pedagogia no ano de 2011 e em Artes Visuais no ano de 2014. 

Escreveu desde muito jovem, sempre muito prolixo, acreditou que passou a ter compromisso e seriedade com a poesia,  tardiamente, a partir de uma oficina em sua cidade, a Oficina Aberta da Palavra. Posteriormente, frequentou cursos com o poeta Cláudio Willer, na Casa da Palavra, em Santo André.

Publicou individualmente: “De Lembranças & Fórmulas Mágicas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2007; ”O Mapa do Abismo e Outros Poemas” Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006,  “Poemas do Século Passado-1982-2000” edição de autor - Mauá – 2002. “Cabalísticos” – coleção Orpheu poesias – Editora Multifoco.- 2010, “A Fome Insaciável dos Olhos”-Editora Patuá – 2013.

Foi publicado em algumas antologias poéticas, jornais e revistas literárias, no papel, na Internet e com ebooks publicados, dando-se destaque: revista Confraria do Vento 2 Anos; revista O Casulo - edição n. 8;  “ As Cidades Cantam O Tamanduateí Que Passa” coletânea de poemas; Livro da Tribo (Agenda Poética) 2004-2005;  Livro da Tribo (Agenda Poética) 2005-2006; Revista A Cigarra – n.º 41; Coletânea Prêmio Off Flip de Literatura, entre outras publicações.

Recebeu as premiações: 1º lugar nacional - 4º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia - 2008; 1º lugar do PRÊMIO OFF-FLIP DE LITERATURA – 2006 – categoria Poesia; 2º Classificado- X PRÊMIO ESCRIBA DE POESIA – 2008; 2º lugar com o poema “serpentário” e Menção Honrosa com o poema “esquisito” -  3º CONCURSO NACIONAL DE POESIA - COLATINA 2007 PRÊMIO “FILOGÔNIO BARBOSA”, Prêmio Lila Ripoll de poesia 2008, 8º Concurso de Poesias de São João del Rei 2008, X Prêmio Escriba de Poesia 2008,  além de menções honrosas em outros concursos. Foi finalista no Mapa Cultural Paulista na categoria Poesia 2012 e 2014, sendo este último vencedor na categoria crônica.

Participou do grupo poético/ literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá –SP e dos encontros no Museu Barão de Mauá “Devaneios Literários”. Sempre presente na cena cultural da cidade foi membro do Conselho Municipal de Cultura.

Nos links abaixo você poderá conhecer um pouco sobre sua obra:
http://umalagartadefogo.blogspot.com/
http://inventariodn.blogspot.com/
http://www.secrel.com.br/jpoesia/ebcamargo.html
http://www.gargantadaserpente.com/toca/poetas/edson_bc.php
http://www.meiotom.art.br/edsonbuenopo.htm
http://www.pensador.info/colecao/camargoeb/
http://www.youtube.com/camargoeb

Fotógrafo e artista plástico, além de escritor, produziu inúmeros trabalhos em arte postal, participando de várias exposições por países da América Latina, América do Norte e Europa.

Faleceu em sua residência, em Mauá, aos 28 de outubro de 2014, com 52 anos de idade, de infarto. Até o último instante de sua vida nunca deixou de fazer planos para lutar pela cultura e pela poesia.

Para saber um pouco mais sobra o escritor segue abaixo uma entrevista cedida por Edson Bueno de Camargo ao poeta Marcelo Ariel, para seu  blog e a Revista Pausa.

1-) O que a poesia significa para você e qual seria a função social da poesia?

Poemas são pequenas cartas suicidas, escrevo para continuar vivo, ou melhor, para me sentir realmente vivo. Esta existência da sobrevivência não me atrai, se vivesse só por viver teria deixado a vida se exaurir em mim. Devemos, na medida que pudermos, viver pela arte, pelo belo, a minha arte é a poesia. 

A função social da poesia, se é que ela tem uma, é dividir o belo com os outros, é tentar na medida de nossas limitações estéticas e éticas ajudar as pessoas a aprenderem e apreenderem o belo. (Olhe bem, o belo na arte é uma condição narcísica muito longe desta pasteurização a que nos impõe os meios de comunicação de massa das grandes corporações.) O poeta tem o destino dos heróis trágicos, deve se imolar pela comunidade que o cerca, mas passa pelo inconveniente de passar em branco, quase por uma invisibilidade. Temos a sina de Cassandra, a irmã de Paris de Tróia, predizemos o futuro e as coisas, mas ninguém acreditará nelas. 

2-) Fale um pouco sobre a sua trajetória e sobre a gênese dos seus poemas?

Escrevo desde muito jovem, sou muito prolixo, mas considero que comecei a “pegar” esta questão de ter um compromisso e seriedade com a poesia meio tardiamente. Foi a partir de uma oficina em minha cidade, Mauá-SP, a Oficina Aberta da Palavra, que me deparei com a necessidade de dar um tratamento estético ao que produzia. Depois em uma oficina com o poeta Cláudio Willer, na Casa da Palavra, em Santo André, cidade vizinha à minha, foi que tive contato com alguma teoria à respeito do assunto. A produção do poema vai ser sempre uma luta entre o sentido e a forma. Dar significado  e ao mesmo tempo não perder de vista que a arte deve buscar o novo. 

Daí para frente foi surgindo um necessidade incontrolável de ser lido. De ter pelo menos leitores críticos. Comecei a disseminar minha produção aos quatro cantos do planeta, utilizei e utilizo muito da Internet como meio de divulgação, participo de saraus e de todo o tipo de atividade que envolva literatura e possa conhecer pessoas que também façam poesia e gostem de poesia. Participei também de alguns concursos literários e obtive algumas premiações. Acima de tudo tenho conhecido pessoas, que como eu não se satisfazem com um pouco de ração, um canto para dormir e outros confortos domésticos. Pessoas que lidam com a poesia em geral são meio selvagens, com pouca afinidade para com a domesticação. Por isso são pessoas perigosas para a sociedade. 

Tenho o hábito de carregar um pequeno caderno, uma vez que minha memória não é muito boa, e neste anotar insights e versos que me vem a cabeça,  sou também um voyeur incorrigível e fico perscrutando as pessoas e suas falas. Existe um momento que este material todo anotado começa a me incomodar, dai sento diante do computador e passo a limpo tudo isso. Nestes momentos nascem os poemas, alguns vêm prontos, outros demoram mais, outros nunca se materializam. E claro leio muito, e de tudo, gosto muito de cultura pop, HQs, animes, filosofia, poetas malditos, blogs da garotada que está na luta agora, muita poesia. Irrita-me quando pego pela frente um cidadão que diz que não lê outros poetas para não “influenciar” sua obra, toda a literatura é intertextual em sua natureza, assim como a arte. Estamos sempre reescrevendo a poesia. Temos um dívida com todos que escreveram antes de nós, e os reescrevemos em nossa escrita. Ter um estilo “próprio” deve significar se não o domínio, a tentativa de dominar aquilo que nos precedeu. Dentro da contemporaneidade não existe espaço para divas e “prima-donas”. 

3-) Na sua opinião, qual é o atual panorama da literatura no Brasil e no mundo, como você vê a situação do livro e do escritor e em especial a do livro de poesia?

Possuo uma angústia muito grande ao reconhecer que não serei capaz de ler e conhecer tudo o que preciso e quero. A cada dia que passa descubro algo ou alguém novo que me passou despercebido ou que não está exposto o suficiente para que o leiamos. Tenho a limitação da língua, por razões misteriosas não consigo ir além do português, embora adore leituras que permitam o contato da obra original junto com a tradução, pois muito da poesia está no som. 

Não tenho uma leitura muito crítica em relação a um panorama da literatura, no Brasil ou no mundo, mas vivemos em uma situação de efemeridade da existência humana, ou tentam nos passar esta visão. A literatura não tem nada a haver com isso, a arte como um todo é nossa tentativa de vencer o tempo e a mortalidade. Vivemos em um período em que a informação é controlada pelos meios de comunicação de massa e por conseqüência muito rasa, não há uma tentativa de se aprofundar os conteúdos.  Mas se pensarmos bem, em que período da história isto não ocorreu de uma certa forma? A Igreja do passado e seu “índice proibido” já era uma forma de manter o conhecimento sob controle. 

O formato livro é uma coisa muito recente historicamente, a imprensa de tipos móveis foi uma revolução muito maior que a que temos hoje com a Internet, possuir muitos livros, ou ter a possibilidade de lê-los, é uma forma de hiper-conectividade além das fronteiras psicológicas da mente. É essencial que continuemos a produzir livros, eles tem o dom de atravessar fronteiras, de passar de mão em mão, de chegar a lugares que nem podemos imaginar. Livros de poesia são pequenas possibilidades de revolução, quando o mundo diz pare, a poesia fala corra, quando o mundo diz corra, a poesia pára. Agora se alguém pretende ganhar dinheiro com livros de poesia, é uma outra história mais complicada.  

4-) O que é a vida para você?

A vida para mim é um grande incômodo. Existir carece de sentido, e sou racional demais, então ao tentar racionalizar algo que não faz o maior sentido, me angustio muito. Não trago em mim nenhuma esperança,  mas ao mesmo tempo, como já disse ao poeta Zhô Bertolini, a poesia me denuncia.  A poesia pode ser o apocalipse e o cataclismo, mas também a hecatombe, não é salvacionista, mas poderá nos salvar de nós mesmos. 

5-) E a Alma?

A Alma é uma coisa vaga, como o Amor.

6-) Cite alguns autores que foram e são importantes para você e por que?

Foram muitas influências, e que estão ocorrendo o tempo todo. Nos meus primeiros versos um poeta quase naïf  chamado Castelo Hanssen; Cláudio Willer nas oficinas da Casa da Palavra de Santo André,  principalmente por não ter sido condescendente com meu texto, colocando o que precisava ser colocado no momento certo e apresentando os poetas surrealistas para mim, em especial, Mario Cezariny e Herberto Helder. O poema “O amor em visita” de Herberto Helder foi um divisor de águas em minha poesia. Não posso deixar de citar Mario Quintana, nem tanto na forma, mas na alma. Cecília Meireles, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, e uma infinidade de nomes aos quais não estou fazendo justiça. Leio muito a garotada que está chegando, muitos blogues e revistas na Internet. Na minha opinião a poesia nunca está completa ou acabada, é um processo, e as possibilidades de influência são infinitas, como já disse antes acredito que a literatura é intertextual. 

Share on Google Plus

Sobre Alex Shinobi

Esse texto foi trazido até você pela Equipe Mauá Memória a cidade Ontem e Hoje, ajude nosso trabalho divulgando nosso site ou enviando fotos antigas, notícias da cidade e coisas que acontecem no seu bairro entre em contato: mauamemoria@gmail.com