Os últimos cortadores de pedra



Por William Puntschart

A construção da memória da nossa cidade desperta importantes reflexões. Por exemplo, as observações de José Maria de Gusmão e Anísio Valério da Silva, ex-canteiros, também chamados escarpelinos, trabalhadores dedicados à arte de cortar pedras.

Nascido em 30 de julho de 1925, José Maria de Gusmão já cortava pedras em Alagoas antes de se transferir para Mauá, em 1947. Recorda sua participação nas seguintes obras: calçamento de Maceió, confecção da pedra de inauguração da fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, e o corte de pedras para o interior da Catedral da Sé, na capital paulista.

Em Mauá, José Maria foi trabalhar na pedreira Milanesi, na então Chácara dos Padres, em terras da Cúria Metropolitana de São Paulo. Ali morava e cortava pedra com vários canteiros, entre os quais Fernando Zanella, mais tarde eleito vereador, e Ennio Brancalion, primeiro prefeito eleito de Mauá.

A jornada de trabalho era de oito horas diárias, com intervalo de uma hora para o almoço. O salário era calculado pela produção (cerca de 2.500 paralelepípedos/mês).

Em seguida, José Maria empregou-se na pedreira dos Ferrari, no atual Parque Ecológico de Santa Luzia, arrendada por Angelin Agnello. O cálculo do salário era feito por milheiro de paralelepípedo confeccionado. No fim da década de 50, foi trabalhar na pedreira de Miroslav Kalis, no atual Itapark, juntamente com Rafael Camioli Armando Cirilo, Otacílio Francisco da Silva e os irmãos Pacola, entre outros canteiros. Os artigos produzidos, paralelepípedos e guias, eram enviados, principalmente, para São Paulo e cidades da região.

Anisio Valério da Silva, nascido em 25 de dezembro de 1924, em Alagoas, preparava na forja ferramentas para os canteiros desde os seus dez anos de idade. Em 1946, decide vir para Mauá. Relembra, com emoção, sua participação na edificação do cruzeiro, na atual Vila Independência, no Itapark.

De acordo com seu depoimento, a edificação do cruzeiro, em homenagem ao sagrado coração de Jesus, contou com a colaboração de toda a comunidade. Milton Tavares da Silva, ex-canteiro e dono de olaria, além de doar o terreno, esculpiu o monumento. Miroslav Kalis deu as pedras; Cíceros Campos Póvoa doou areia, cal e cimento e Elio Delpiere forneceu quatrocentos tijolos.

Na inauguração, em 3 de maio de 1959, compareceram personalidades políticas e religiosas. A organização do evento ficou a cargo de Geraldo Rosa da Silva, antigo morador local e um dos principais defensores desse importante patrimônio histórico-cultural de nossa cidade.

Em Mauá, Anisio foi trabalhar na Pedreirinha, no atual Jardim Silvia, administrada por Lourival de Almeida, considerado, na época, “bom patrão” pelo fato de registrar os empregados. Sua tarefa era produzir cerca de oito metros de guia/dia. Entre as mais antigas pedreiras, aponta a de Raphael Pellegrini, em funcionamento desde 1910 numa área de cerca de nove alqueires, onde, hoje, estão o núcleo habitacional do Kennedy e parte da Escola Municipal Cora Coralina. Por sinal, essa pedreira nomeia o córrego, cuja nascente resiste no interior daquela morada e desliza em direção ao Tamanduateí.
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Sobre Alex Shinobi

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