Os Dekassegui

Fonte: www.niponica.com

Por Marize Tamaoki

Decorridos 100 anos da chegada do Kasato Maru ao Brasil, trazendo 781 lavradores imigrantes contratados (165 famílias de 733 membros, além de 48 pessoas avulsas) pela Companhia Imperial de Colonização L TA. (presidida por Ryu Mizuno), a saga hoje se repete ao contrário. 

Em busca da independência econômica e da possibilidade de adquirir seu próprio negócio e casa própria, cerca de 31.300 brasileiros estão vivendo no Japão na condição de dekasseguis, palavra que significa "buscar dinheiro fora". O dekassegui está consciente de que irá trocar o calor dos trópicos, a alegria e o bom humor dos brasileiros por um país em que o frio é intenso, tendo como acolhida japoneses, que, devido à sua cultura, são mais contidos em expressar seus sentimentos. Sabem que o trabalho que lhes estará destinado é aquele que o próprio japonês não aceita realizar, estigmatizado pela letra "K": Kitanai - sujo Kitsui - penoso Kiken - perigoso Portanto, a vida que irão enfrentar será dura e penosa. 

A grande maioria trabalhará em fábricas de autopeças, de aparelhos eletrônicos e na construção civil. Outros prestarão serviços a firmas de limpeza, de segurança, a hospitais e poderão até trabalhar como carregadores de tacos de golfe. Já as mulheres mais maduras encontrarão ocupação como enfermeiras ou acompanhantes de idosos e doentes. Enfim, a vida no Japão, além de monótona, transformará os dekasseguis em pessoas sem identidade, vestidas de macacões sujos, apertando botões de máquinas, o que lembra as cenas de "Tempos Modernos" em que o personagem Carlitos, devido ao intenso trabalho repetitivo, transforma-se num autômato. Para quem estava acostumado ao arroz e feijão, churrasco e comida bem temperada, o contraste com o gosto agridoce dos "bentôs" e o excesso de peixe deixarão saudades da culinária brasileira. Nas fábricas, o horário de almoço será restrito apenas a meia hora e até as idas aos banheiros serão cronometradas. O dekassegui, habituado ao calor do clima tropical, enfrentará invernos rigorosos, sendo indispensável a calefação, os agasalhos pesados e os sapatos forrados com jornais. A sociedade nipônica é fechada para os dekassegui, mesmo que dominem o idioma. 
Assim, em geral, eles preferem ficar em seus alojamentos e procuram formar comunidades, que lhes amenize a solidão e o choque cultural. A vida no Japão é muito cara para quem pretende "fazer o seu pé de meia": uma cerveja custa US$ 6,00; uma Coca-Cola, US$ 4,00. O turismo lá é difícil: todas as placas de orientação são escritas em diagramas. Mesmo assim, sutilmente, muitos brasileiros começam a dar sinais de que estão se fixando em definitivo no Japão, deixando de serem tachados como dekasseguis, para serem considerados apenas como imigrantes. Entretanto, a maioria pretende voltar um dia ao Brasil, mas poucos se arriscam a dizer quando, como ocorria na década passada. 

Os primeiros dekasseguis brasileiros chegaram ao Japão por volta de 1983, no auge de uma recessão que combinava desemprego e inflação alta no Brasil. A partir desse período, muita coisa mudou no Japão, a começar pelo estilo de vida. Os homens solitários e de hábitos espartanos, que só trabalhavam e economizavam ienes, constituíram famílias com desejos de consumo. Já se dão ao direito de almoçar fora, visitar a Disneylândia de Tóquio e comprar eletrodomésticos, luxos impensáveis para o dekassegui dos anos 80. Sabemos que este ciclo imigratório está chegando ao fim. 
O motivo principal é que em breve não haverá mais nipo-brasileiros aptos a trabalhar como operários no Japão. Os nisseis e sanseis, filhos e netos de imigrantes, não são mais jovens o bastante para recomeçar suas vidas tão longe. Além disso, as leis japonesas concedem visto de trabalho apenas a nikeis até a terceira geração. Portanto, os yonseis, a quarta geração, estão legalmente impedidos de substituir os atuais dekasseguis, que evidentemente irão envelhecer e se aposentar. Logo, mesmo com o crescimento da população dekassegui, o contingente de brasileiros atingirá o seu limite e se estabilizará. Certamente uma parte destes brasileiros ficará no Japão, fincará lá suas raízes com descendentes que terão esse país como terra natal e, certamente, num futuro próximo, alguém escreverá a saga dos "fossei", um povo que retornou à Terra do Sol Nascente. 

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Sobre Alex Shinobi

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