Entrevista com o Prefeito de Mauá Ênio Brancalion no ano de 1958 Entrevista com o Prefeito de Mauá Ênio Brancalion no ano de 1958 | Mauá Memória, história e Cultura



Esta foi a unica entrevista dada pelo Prefeito Ênio Brancalion no final de seu mandato em 1958


Este jornal vem de tempos para cá, solicitando do Sr. Prefeito uma entrevista. S. Excelência  porém, sempre com o tempo tomado pelos afazeres administrativos, não encontrava oportunidade para nos atender. Entretanto, depois de muita insistência de nossa parte conseguimos que S. Excelência para que dissesse alguma coisa a respeito da sua administração Assim, para conhecimento do povo de Mauá, passamos a estampar as palavras do administrador da cidade.


Com a palavra o Prefeito de Mauá: Ênio Brancalion:


Quero agora que o meu mandato que chegando ao seu término, pela primeira e possivelmente também pela última vez, me dirigir ao Povo de Mauá, através desta Folha a fim de fazer uma espécie de prestação de contas, prestação, esta que deverá servir como um breve resumo histórico da administração a qual me foi dado chefiar, para o bem de todos, e  também. dentro de algum anos, possa recordar melhor os primeiros anos de Mauá como Município Autônomo. 

Muito teria eu que dizer se pretendesse entrar nos pormenores da administração, pois tanta coisa foi executada que talvez nem eu me recorde de tudo. Vou por isso abordar as realizações que considero mais importantes, registrando porem, antes, alguns pormenores que nem todos conhecem mas que. pelo seu significado, não podem deixar de ser mencionados. Refiro me a atenção que foi dedicada as Pessoas mais pobres. A mãe necessitada que pediu leite e foi atendida, o indigente que precisou de uma consulta médica e de medicamentos e que os recebeu, o outro que precisou de uma hospitalização e que foi hospitalizado, ou o outro que precisou ser transportado para um hospital e teve o jeep da Prefeitura a servi-lo, ou carro de ponto que os motoristas são testemunhas, ou o estudante que recebeu da Prefeitura auxílio para pagar as suas despesas de transporte. ou ainda e finalmente o cidadão que teve a infelicidade de ter a sua casa destruída por um incêndio e que recebeu da Prefeitura auxílio para reconstruí-la, E este registro eu o faço sem nenhum objetivo menos nobre, mas sim com o fim de demonstrar que procurei sempre atender aqueles que mais necessitam do amparo das instituições públicas. E não seria eu, homem de origem modesta operária iria me colocar longe daqueles que me deram um crédito de confiança ao me tirarem de uma pedreira para, através do voto, me colocarem no cargo mais alto da cidade. O cargo, bastante honroso, Graças a Deus, não me mudou. 

Continuei sendo o mesmo. Atendi o povo na rua, no Gabinete, na minha casa, de noite, de dia, enfim, em todos os lugares e em todas as horas. Não acho que tenha feito algo de mais. Sinto entretanto que cumpri com as minhas obrigações e, sem nenhuma vaidade me orgulho de ter honrado a confiança do povo. E assim, se Deus quiser, continuarei até o fim do meu mandato de Prefeito que está por pouco mais de três meses. A respeito das realizações do meu governo, destaco o seguinte:
 O asfaltamento da Estrada que liga Mauá a Santo André e a Ribeirão Pires; as extensões de rede de energia elétrica para consumo domiciliar: a ampliação da rede de iluminação pública; a atenção dispensada ao setor educacional; a construção do Grupo Escolar de Vila São João e a ampliação do grupo escolar Vila Vitoria; algumas pontes e principalmente a da Avenida Barão de Mauá;  a canalização do córrego e aterro da Praça 22 de Novembro; o serviço aérofotogramétrico que esta para  ser concluído; alguns serviços de calçamento e colocação de guias e sarjetas; a conservação e apedregulhamento de quase todas as ruas; a aquisição de veículos, ou seja, 2 caminhões, uma motoniveladora e um jeep; a aquisição de máquinas e móveis necessários ao funcionamento da Prefeitura; a contratação com a Light, por 20 anos, de serviços de iluminação pública; a contratação com a Cia. Telefônica Borda do Campo, de concessão dos serviços telefônicos; a construção, por parte do Estado, do prédio do Grupo Escolar Visconde de Mauá; a instalação, também por parte do Estado, do Posto de Assistência Médico-Social do Ginásio Estadual, do Posto de Puericultura e da Casa da Lavoura, realizações estas que, embora não tenham sido feitas pela Prefeitura, tiveram a nossa colaboração; o extraordinário aumento da arrecadação municipal, sem que para isso usássemos do aumento dos impostos; o início da arborização da cidade; a construção de abrigos de ônibus, a melhoria feita em algumas ruas, principalmente na Av. da Saudade, onde foi construída uma ponte; a mudança da garagem e depósito da Prefeitura para possibilitar a construção do jardim; o cuidado dispensado às estradas municipais e, finalmente, um pormenor que considero de grande importância e que como simples cidadão de Mauá muito me orgulho: 
O bom nome que conseguiu o nosso Município apesar de existir a menos de 4 anos. Em todos os lugares, e principalmente nas cidades mais próximas, temos ouvido as melhores referências sobre Mauá. 


Quer pelo seu progresso, quer seja orientação dada a administração municipal, Mauá já se projeta entre os demais municípios do nosso Estado. Além dessas realizações, quero esclarecer que a Prefeitura já tomou providências para a construção da agência do correio, tendo para isso cedido um terreno; já solicitou a criação da Coletoria Federal, existindo na Câmara Federal um projeto criando tal repartição; já assinou com o Serviço Especial da Saúde Pública, do Ministério da Saúde um contrato para o planejamento do abastecimento de água da cidade, serviço este que poderá ser feito com o auxílio do levantamento aerofotogramétrico o que está sendo concluído, já solicitou e dentro em breve será instalada uma agência da Caixa Econômica Estadual e finalmente já tomou providências para a  aquisição, por preço especial e com as facilidades concedidas aos municípios pelo Governo Federal, de mais uma motoniveladora, máquina esta que deverá custar, aproximadamente, um terço do preço da praça. Isto tudo está em andamento e, se não formos nos, a outro caberá concretizar estas iniciativas. Mencionadas as principais realizações do nosso governo, desejo registrar alguns pormenores a respeito de algumas delas. 

Com referência as extensões de rede de energia elétrica para consumo domiciliar, desejo esclarecer que aproximadamente 60 ruas ou trechos de ruas foram beneficiados, incluindo-se entre tais extensões as que alcançaram o Bairro São João e a Vila Magini. 

Ainda este ano, esperamos beneficiar também outras ruas, inclusive a Vila Falchi e o Jardim Anchieta, passando pela Av. Assis Brasil e beneficiando também algumas travessas dessa Avenida. Só este serviço exigirá a colocação de 65 postes e deverá custar aproximadamente 1 milhão de cruzeiros. 

Até o fim do ano passado, a Prefeitura havia aplicado 4 milhões e 300 mil cruzeiros em tais serviços. Este ano, com os serviços que já estão contratados, com a extensão que vai alcançar o Jardim Anchieta e com outros serviços que também serão executados, a Prefeitura aplicará aproximadamente 2 milhões e 500 mil cruzeiros, o que quer dizer que com os serviços já executados, em execução e os a serem executados, a Prefeitura aplicará aproximadamente 2 milhões e 500 mil cruzeiros, o que quer dizer que com os serviços já executados, em execução e os a serem executados a Prefeitura aplicará
durante a nossa gestão, em tal serviço, aproximadamente 7 milhões de cruzeiros. 

Muitos cidadãos me interrogam-me para saber porque a Prefeitura tem executado poucos serviços de calçamento. A razão é a seguinte: Com a mesma importância que se executa um quilômetro de calçamento, pode-se executar 2 ou 2 quilômetros e meio de extensões de rede de energia elétrica. Entre um serviço e outro, considero mais importante o segundo, pois ele traz uma série de benefícios. 

É a dona de casa que encontra mais facilidade para os seus serviços cotidianos com o ferro elétrico ou com a bomba instalada no poço, é o rádio que passa a funcionar levando as noticias e colocando o cidadão a par daquilo que ocorre e que o cidadão deve saber, é a leitura do livro ou do jornal que se torna possível a noite, é a geladeira e a televisão que passam a funcionar nas casas daqueles que podem possuir tais aparelhos. 

Não quero dizer com isto que o calçamento não seja necessário, mas sim demonstrar que entre um e outro serviço ele deve ser o segundo. Cabe aqui acrescentar que, ao meu ver, o calçamento deve ser feito depois de executadas as redes de água e esgoto, principalmente em Mauá onde o tráfego de veículos não é tão intenso e pode ser feito conservando-se as ruas em bom estado. Nas ruas de tráfego mais intenso, é claro, o calçamento deve ser executado, mas, desde que as ruas apresentem boas condições, ele pode ser adiado.E por tal razão que temos procurado manter em bom estado as ruas da cidade. 

Com referência a iluminação pública, desejo registrar que a Prefeitura assinou um contrato com a Light, de vinte anos de duração, para a instalação de 250 bicos de iluminação por ano. Não me parece que haja necessidade de tantos bicos, e a Prefeitura não será obrigada a instala-los, mas, desde que haja necessidade, o direito está assegurado. Antes de assinar esse contrato, existiam em Mauá 81 bicos de iluminação. Hoje, com os instalados em Vila Vitoria, Capuava e na parte central da cidade, temos 216, ou seja, foram instalados 135 novos bicos. Não quero deixar também de tecer algumas considerações a respeito do ensino. Logo no início da nossa gestão, existiam aproximadamente 750 crianças que não podiam ser matriculadas por falta de vagas no Grupo Escolar do Centro. Às pressas, foi construído um galpão e foram criadas, por solicitação nossa feita ao Governo do Estado, escolas na Fazenda Matarazzo e no Jardim Mauá, tendo-se resolvido o problema. Posteriormente, ampliamos o Grupo Escolar de Vila Vitoria, estabelecimento este que causou verdadeira surpresa aos professores que em certa ocasião nele efetuaram um reunião, isto pelo fato do cuidado que a Prefeitura dispensa ao prédio. Mais adiante, conseguimos que o Estado reiniciasse a construção do prédio do Grupo Escolar Visconde de Mauá, prédio esse que é uma das grandes conquistas de Mauá. Construímos) prédio para o Grupo de Vila São João, o qual, também consideramos uma das grandes realizações da nossa gestão. 

Conseguimos a criação do Ginásio Estadual, atualmente funcionando no prédio onde funcionava o Grupo Visconde de Mauá, tendo a Prefeitura procedido as reformas exigidas pelo Governo para a instalação do ginásio. Dedicamos sempre especial cuidado com as escolas isoladas e, finalmente, neste setor, conseguimos com o SESI — Serviço Social da Indústria, a instalação de um Centro Educacional, tendo a Prefeitura cedido o local necessário. 

No setor da assistência médico-social, não é menos significativo o trabalho que a nossa administração vem realizando. De 1955 até 30 de Agosto do corrente ano, a Prefeitura autorizou, conforme mensagens que temos encaminhado a Colenda Câmara, nada menos que 696 internações hospitalares, todas por conta da Prefeitura. Deixo de mencionar as consultas médicas, isto porque elas são na ordem de aproximadamente 1.000 por mês. 

Os mesmo acontece com os curativos, aplicações de injeções etc. Estão registradas no Ambulatório Municipal mais de 6.000 pessoas, o que quer dizer que aproximadamente um terço da população de Mauá já foi servido, no mínimo uma vez, pelo Ambulatório. 

Não tem sido menor o cuidado dedicado a infância. Quando não existia o Posto de Puericultura, a Prefeitura se encarregava de fornecer leite às crianças de famílias pobres. Hoje, com a instalação daquele Posto, instalação essa para a qual a Prefeitura forneceu o referido  local e os móveis e o Estado o pessoal e os materiais necessários, passamos tal serviço para o Estado. 

Não poderíamos deixar aqui de tecer referências sobre a concessão de serviços telefônicos dada a Companhia Telefônica Borda do Campo, empresa essa formada e dirigida por um grupo de cidadãos de alta envergadura e coragem que se propuseram resolver esse problema do A.B.C., de  Mauá e de Ribeirão Pires. A nossa cidade, dentro de 30 dias mais ou menos, terá também contará seus telefones moderníssimos. É um problema dos mais graves que existiam em Mauá  e que nesta administração também desaparecerá. 

Outro serviço de grande valor é o levantamento aerofotogramétrico sobre o qual já fizemos menção. Trata-se de um serviço altamente técnico, cujo custo é de aproximadamente um milhão de cruzeiros. 

Com tal serviço  poder-se-á estudar o planejamento da cidade, redes de água e esgoto, ampliação do perímetro urbano, enfim, tudo aquilo que diz respeito a execução de obras de alta envergadura. 

Não posso também de tecer algumas referências a respeito do patrimônio da Prefeitura. Nós, que nada encontramos, vamos deixar um patrimônio avaliado em aproximadamente 6 milhões de cruzeiros a os que vão assumir a Prefeitura e que é representado pelos veículos, máquinas, móveis e a construção de próprios municipais. Só a nossa motoniveladora que custou 1 milhão e 850 mil cruzeiros, está avaliada  hoje, nova, aproximadamente em 3 milhões e 400 mil cruzeiros. 

Finalmente, abordo a arrecadação municipal. Quando tomamos posse, encontramos a Prefeitura com uma arrecadação de 3 milhões e 500 mil cruzeiros, pois foi essa a arrecadação de 1954. A receita municipal foi aumentando ano a ano e, para o próximo ano, deixaremos um orçamento de 30 milhões ou mais. E todos sabem que não houve em Mauá aumento de impostos. 

Foi procedida uma revisão em 1955 e nada mais se alterou, em alguns casos isolados e em uma ou outra taxa. Entretanto, podemos afirmar que, nos 5 municípios do pentágono industrial, é no de Mauá onde mais baixos são os impostos, principalmente os impostos que recaem sobre a propriedade ou seja sobre casas e terrenos. Muitos perguntarão como se conseguiu tão grande aumento da arrecadação. É fácil responder. Só do Estado deveremos receber no próximo ano uma importância superior a 10 milhões de cruzeiros. 

O município tem crescido, novas indústrias foram instaladas. É enfim o progresso que aí está, progresso esse para o qual a população de Mauá tanto tem contribuído. Não creio possa dizer algo  mais. O trabalho da nossa administração aqui está reproduzido, muito embora possa eu crer que alguma coisa tenha me escapado. Não sei se a administração foi boa ou má, não sou eu quem deve julga-la, mas sim o povo. Para ela dei a minha colaboração. Para ela contribuíram a Câmara Municipal através dos seus vereadores. 
Para ela contribuíram os funcionários e operários da Prefeitura . E ela, isto que é o mais importante, foi paga pelo povo através dos impostos que esse mesmo povo recolhe anualmente nos cofres municipais. 

Em resumo, uma administração pública não é fruto de uma pessoa nem de um grupo. Muitos colaboram na sua execução. Mas, atras desses colaboradores, está o povo sustentando tudo. Não fui eu quem deu medicamentos, hospitalizações, consultas médicas, enfim tudo aquilo que aqui foi mencionado ao povo. Foi o povo quem deu ao povo. Eu, como os vereadores e os funcionários, estivemos a serviço do povo. É assim na democracia. Eu, de minha parte, sinto que dei a minha colaboração e a minha consciência esta tranquila. E acredito também que os Senhores Vereadores que cooperaram se sentirão da mesma forma tranquilos, porque, nestes 3 anos e 8 meses, conseguimos, num esforço conjunto, procurar corresponder a confiança do povo. Creio também que devem estar satisfeitos aqueles que lutaram pela emancipação de Mauá, pois o ideal que os mesmos acalentavam, e as esperanças que tinham, não foram desmentidos neste primeiro quatriênio administrativo. Termino, agradecendo de público a colaboração dos Senhores Vereadores e de todos aqueles que deram a sua ajuda a nossa administração. Ao povo, dirijo os mais calorosos agradecimentos pela compreensão que demonstrou ao nosso trabalho e rendo preito da minha homenagem, respeito e admiração pelo esforço que faz para o engrandecimento do nosso Município. 

Folha de Mauá, 20 de setembro de 1958

Nota importante:
30 de agosto de 1958
Depois de quatro anos de muito trabalho, a CTBC entrava em operação com um total de 7.600 terminais instalados (4.000 em Santo André; 1.200 em São Bernardo do Campo; 2.000 em São Caetano do Sul; 200 em Mauá e 200 em Ribeirão Pires) e 113 funcionários.
Fonte: www.ctbc.com.br