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Autor:  Engenheiro Agrônomo Orlando Lisboa de Almeida


 Era final dos anos 60 e nós trabalhávamos de dia e estudávamos no Viscondão, fazendo colegial.   O colégio era estudo e também ambiente de fazer amizades, algumas que duram até os dias de hoje com a ajuda da internet.

 A turminha de amigos se reunia após a aula geralmente na sexta feira, que podia ficar até mais tarde porque no outro dia não precisava pular cedo.     Num dos encontros dos amigos no Bar ABC, o amigo Gino nos convidou para irmos passar um fim de semana no Tio Zeca dele que morava na praia.   Morava modestamente, mas morava na região de Santos.  Não precisou insistir muito.   Marcamos o dia e a partida era cedo, ida de trem.

 Descer a serra do Mar de trem já era um passeio e tanto, num percurso de uns setenta quilômetros.    

 Na hora dos amigos se encontrarem para partir, um deles traz um “convidado” que nós nunca tínhamos visto mais gordo.   Depois o amigo explicou de forma reservada.    Esse mala é meu vizinho, tem casa e criança pequena e tinha saído pra comprar leite e me viu e perguntou onde eu estava indo e se ofereceu pra ir também, assim do nada.   Nosso amigo ficou sem ter como rifar o bicão e só esperou ele correr até a casa, deixar o leite e partiram juntos.

 Nós no trem que tinha alguns vagões cuja porta nem fechava.  Hora ou outra, mesmo alguém dos amigos, sentados no chão do trem (quase vazio) com os pés pendurados pra fora.   Lá vinha o fiscal e catracava:  Não pode.   Se chega na plataforma vocês ficam sem as pernas!   

 Chegamos no Tio Zeca, uma modesta casa de madeira sem pintura, mas acolhedora.   E estávamos nuns cinco.   Mais bocas pro jantar, já que o almoço petiscamos coisas na rua mesmo.     Para o jantar, um da turma comprou um garrafão de vinho para acompanhar o rango e o bicão estava com um apetite de leão e quase nos deixou na mão.   Que cara fora dos conformes!

 Jantamos e fomos dar uma volta e paramos num parque de diversões.  Calor e bastante gente por ali circulando e paquerando.   A barraca de tiro com rolha lotada.     O bicão resolveu mostrar que era bamba na pontaria e abriu com os cotovelos, espaço pra apoiar os braços, provocando cara feia dos que estavam na frente dele.  Ô cara topetudo!  Só não levou uns petelecos porque notaram que estávamos por perto.   E saber que nossa turma de verdade nunca se metia em encrencas.  Nunca.

 Vai daí que o bicão “dobrou” a espingarda para dar pressão e nisso, nhec! – prendeu a mão assim entre o polegar e o indicador.   A espingarda mordeu e sangrou.     O bicão machão olhou pro pouco sangue que escorria e disse:   Olha, sangue! – e bambeou as pernas.   Toca segurar o dito cujo que teve um leve desmaio.   Para a vergonha dos amigos que nem amigos do cara eram.    E o tal ainda quis saber se juntou gente pra ver ele desmaiado uns 20 segundos.   Tenha a santa paciência, meu!!

 No outro dia, pegar o trem pra voltar pra casa, depois de um fim de semana com banho de mar e passeio no parque e coisa e tal.  

          O amigão Beto tinha comprado um Whisky quase legítimo lá pelas bocas e veio faceiro com o litrão na mão.    Antes da bilheteria, lá vem o guarda e disse pra toda a patota:    Sem camisa assim, não viaja no trem.

 Tá bom.   Todos botam camisa e vamos lá.    O guarda de novo.  Ei você com bebida alcoólica.   Não pode entrar com isso no trem.    Vai o Beto e dá um tempo lá fora, embrulha bem o whisky e bota debaixo do braço e quando já achou que o guarda esqueceu dele, vai passando de boa.  Até já tinha passado, mas o danado do litro resolve escapar do embrulho e paff!   Estatelou na plataforma perto do guarda que veio de dedo em riste e disse:    Eu não falei que não pode entrar com bebida alcoólica no trem?

 Assim foi mais um fim de semana da turminha que conseguia se divertir muito com pouco e conseguiu viver uma época e fazer amizade para sempre.