Entre o petróleo e a política: a trajetória do Sindicato dos Petroleiros de Mauá e a Refinaria de Capuava

A Refinaria União começou a ser construída em 1953 e entrou em operação em 1954, empregando cerca de 700 trabalhadores. À época, tratava-se da maior refinaria do país — e um detalhe importante chama a atenção: ela estava sob controle da iniciativa privada, com capital nacional e norte-americano. Em um momento em que o país fervilhava com a campanha “O petróleo é nosso” e com a recente criação da Petrobrás, essa situação incomodava profundamente os setores nacionalistas.

Entre o petróleo e a política: a trajetória do Sindicato dos Petroleiros de Mauá e a Refinaria de Capuava

A história do Sindicato dos Trabalhadores na Distribuição e Refinação de Petróleo de Mauá está profundamente entrelaçada com um dos períodos mais tensos e decisivos da história brasileira. Muito além de uma luta local por direitos trabalhistas, o que se desenrolou em Capuava foi parte de um embate nacional sobre soberania, desenvolvimento econômico e o papel do Estado na indústria do petróleo — debates que ajudaram a pavimentar o caminho para o Golpe Militar de 1964.

Para compreender essa trajetória, é preciso voltar ao pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1946, o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) autorizou a instalação de uma refinaria que não poderia ser construída na então Capital Federal, o Rio de Janeiro. Após novas negociações, o empreendimento foi aprovado para a região metropolitana de São Paulo, com capacidade ampliada. O local escolhido foi Capuava, então pertencente ao município de Santo André, estratégica por sua posição entre o Porto de Santos e a capital paulista.

A Refinaria União começou a ser construída em 1953 e entrou em operação em 1954, empregando cerca de 700 trabalhadores. À época, tratava-se da maior refinaria do país — e um detalhe importante chama a atenção: ela estava sob controle da iniciativa privada, com capital nacional e norte-americano. Em um momento em que o país fervilhava com a campanha “O petróleo é nosso” e com a recente criação da Petrobrás, essa situação incomodava profundamente os setores nacionalistas.

Durante seus primeiros anos de funcionamento, os trabalhadores da refinaria não possuíam um sindicato próprio. As condições de trabalho não diferiam muito das encontradas nas refinarias estatais, o que retardou a organização sindical. Esse cenário começou a mudar no início dos anos 1960, quando greves em refinarias da Petrobrás — especialmente em Cubatão — conquistaram a jornada de seis horas e ampliaram direitos trabalhistas. Os petroleiros de Capuava, por estarem em uma refinaria privada, ficaram de fora dessas conquistas.

Foi nesse contexto que, em agosto de 1960, nasceu o Sindicato dos Trabalhadores na Distribuição e Refinação de Petróleo de Mauá. Pouco tempo depois, o movimento sindical entrou em ebulição. Em março de 1962, os trabalhadores da Refinaria União deflagraram sua primeira grande greve, reivindicando equiparação de direitos com os petroleiros da Petrobrás. O movimento contou com apoio de trabalhadores de outras refinarias e enfrentou dura repressão, com prisões e violência policial.

A luta evoluiu. Em 1963, a principal bandeira deixou de ser apenas a equiparação salarial e passou a ser a encampação da refinaria pela Petrobrás. Para os sindicalistas, essa era a única forma de garantir direitos iguais. A campanha se inseria em um movimento nacional mais amplo pelas chamadas “reformas de base”, articulado por sindicatos, setores da esquerda nacionalista e pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT).

As greves se intensificaram. Em uma delas, cerca de 95% dos trabalhadores da refinaria aderiram à paralisação, exigindo que o presidente João Goulart cumprisse a promessa de nacionalizar as refinarias privadas. O apoio veio de várias partes do país, mas a oposição também se fez presente, especialmente na grande imprensa e nos setores conservadores.

O ápice desse processo ocorreu em 13 de março de 1964, no famoso comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Diante de uma multidão estimada em cem mil pessoas, João Goulart assinou o decreto que nacionalizava as refinarias privadas de petróleo, incluindo a de Capuava. Em Mauá, o clima foi de euforia. Trabalhadores organizaram festas e preparavam uma grande cerimônia para marcar oficialmente a encampação.

Ela, porém, nunca aconteceu.

Poucos dias depois, em 31 de março de 1964, o golpe militar interrompeu abruptamente esse processo. O decreto foi revogado, o sindicato sofreu intervenção federal, seus dirigentes foram presos, perseguidos e torturados, e cerca de cem trabalhadores foram demitidos da refinaria. A organização sindical dos petroleiros de Mauá foi desmantelada.

Um dado curioso — e revelador das contradições do período — é que, anos depois, em 1974, o próprio regime militar acabaria comprando a maior parte das ações da Refinaria União, colocando-a sob controle da Petrobrás, possivelmente influenciado pela crise internacional do petróleo.

Os trabalhadores de Mauá só voltariam a ter uma entidade representativa em 1977, com a criação da Associação dos Petroleiros de Mauá. Na década de 1980, já sob a influência do chamado “sindicalismo autêntico”, a entidade se transformaria em sindicato novamente, protagonizando greves históricas — incluindo a paralisação de 32 dias em 1995, uma das mais longas do mundo no setor petrolífero.

A história do sindicato dos petroleiros de Mauá é, portanto, mais do que um capítulo local. Ela revela como trabalhadores da cidade estiveram no centro de disputas nacionais sobre democracia, soberania e direitos sociais — e como essas lutas deixaram marcas profundas que ainda ecoam na memória coletiva.

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