Os canteiros de Mauá: trabalho, luta e a herança anarquista
Dessa terra saíam os paralelepípedos que pavimentaram ruas e calçadas da cidade de São Paulo, em plena expansão urbana no início do século XX.
Muito antes da industrialização transformar Mauá em um polo fabril, foi a pedra que moveu a economia local. Entre o antigo Pilar — nome pelo qual Mauá era conhecida — e Ribeirão Pires, os morros ricos em rochas deram origem à primeira atividade econômica exercida de forma intensiva na região: a extração de pedras. Dessa terra saíam os paralelepípedos que pavimentaram ruas e calçadas da cidade de São Paulo, em plena expansão urbana no início do século XX.
Quem fazia esse trabalho pesado eram, em sua maioria, imigrantes italianos, que chegaram ao Brasil fugindo da grave crise econômica em seu país de origem. Muitos deles trouxeram não apenas a força do braço, mas também ideias e experiências políticas adquiridas na Europa. Entre essas influências, destacou-se o anarquismo, corrente que defendia a organização direta dos trabalhadores e a resistência coletiva contra a exploração. Como define o historiador John French, tratava-se da crença na “ação direta contra os empregadores” como o principal meio de garantir direitos.
Essa consciência política logo se traduziu em ação. Entre 1913 e 1914, ocorreu a primeira grande greve dos canteiros nas pedreiras de Ribeirão Pires e do antigo Pilar. O estopim foi a tentativa dos proprietários de reduzir salários. Em resposta, os trabalhadores cruzaram os braços e paralisaram as atividades. O conflito chegou a um ponto inusitado: a primeira tropa da Força Pública enviada para conter a greve se recusou a reprimir os trabalhadores, demonstrando simpatia pela causa dos canteiros. Somente uma segunda intervenção policial conseguiu conter o movimento, com prisões e invasões de casas. Alguns grevistas foram obrigados a caminhar a pé, pelos trilhos da ferrovia, até a delegacia de São Bernardo, então sede do município.
Apesar da repressão, a luta não se encerrou ali. Ao longo da década de 1910 e início dos anos 1920, os canteiros continuaram a se mobilizar por melhores salários e condições de vida. Entre as lideranças mais atuantes estavam os irmãos Alexandre e Fernando Zanella. Em 1921, ambos foram presos; Alexandre, por ser italiano, acabou deportado. Fernando, no entanto, permaneceu ativo nos movimentos trabalhistas até sua morte, em 1958.
Outro nome importante nesse cenário foi Ênio Brancallion, que mais tarde se tornaria figura central na política mauaense. Segundo o depoimento de José Maria de Gusmão, trabalhador das pedreiras a partir de 1947, Enio e Fernando Zanella distribuíam pequenos jornais e panfletos defendendo a união dos operários, além de livretos que apresentavam a vida dos trabalhadores na União Soviética. Nesse período, a influência comunista já ganhava mais espaço entre os trabalhadores, substituindo gradualmente a herança anarquista das décadas anteriores.
As mobilizações dos canteiros não foram em vão. Muitas reivindicações foram atendidas, e as condições de trabalho melhoraram ao longo do tempo. Com a decadência da atividade de extração de pedras, o número de trabalhadores nas pedreiras diminuiu, mas a memória dessas lutas permanece viva.
Mais do que um capítulo da história econômica de Mauá, a trajetória dos canteiros deixou um legado duradouro: a consciência coletiva, a organização popular e a busca por uma sociedade mais justa — marcas profundas na formação social e política do município.
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