Sessenta anos de Aristides Theodoro O Velho Jagunço
O escritor autodidata Aristides Theodoro completa 60 anos de vida e mais de quatro décadas dedicadas à literatura. Conhecido como “Velho Jagunço”, “Canalha” ou “Livreiro Audaz”, construiu sua trajetória entre livros, poesia e crítica literária, atuando em jornais do ABC e de São Paulo. Nascido em Utinga, na Bahia, enfrentou preconceitos ao migrar para São Paulo e encontrou em Mauá o solo fértil para sua formação intelectual. Leitor voraz desde a infância, tornou-se poeta, cronista e livreiro, com obras publicadas a partir dos anos 1980 e participação em importantes coletivos literários. Figura marcante do meio cultural, Aristides alia aparência áspera a uma profunda paixão pelas letras nacionais.
Escrito por Iracema M. Régis
Neste mês de novembro, exatamente no dia 27, o escritor Aristides Theodoro, autodidata, mais conhecido entre os amigos (enchedores de saco, contadores de mentira, que azucrinam todo dia) pela alcunha de “O Velho Jagunço”, “O Canalha” ou “O Livreiro Audaz”, completa sessenta anos de jornada — quarenta e tantos dos quais dedicados à literatura.
Começou a resenhar livros ainda rapazote, para A Gazeta de Santo André. Nessa época, já caraminholava poesias e contos ao voltar do serviço a pé, sempre acompanhado dos inseparáveis amigos Moysés Amaro Dalva e Castelo Hanssen. Reside em Mauá há muito tempo, de onde só sairá, segundo suas palavras, para o cemitério.
Chamado de “Velho Jagunço” pela rudeza com que se expressa ao dar mil e uma informações por dia — na Praça da República, onde trabalha com livros — sem ser pago para isso e sem ouvir aquelas palavras mágicas que abrem qualquer porta, como: com licença, por favor, obrigado, desculpe interromper, etc.
Carinhosamente, é chamado de “Canalha”, por simples brincadeira. Tanto esse apelido quanto o de “Velho Jagunço” estão muito bem retratados no poema “Não Pergunte Nome de Rua Para o Jagunço Moita Brava”, do inveterado poeta sarrista João Emílio Krauser, vulgo Mad Jack. Leiamos estes versos como ilustração:
“O cabra é um lapidado canalha!
Canalha de índole,
canalha de estirpe...
um canalha de pedigree, eu diria.
Mas, sem dúvida, um canalha.
O Jagunço Moita Brava não entende de ruas.
O mundo de Moita Brava não tem nome de rua...
Só tem livros, pintura, mentiras e safadezas.”
“O Livreiro Audaz” vem de uma crônica do romancista Paulo Dantas, também jagunço, versando sobre a atividade livreira do escritor. Antes, o articulista Severino José, mais conhecido por ser doutor em cordel, escreveu um artigo luminoso intitulado “Quem Tem Medo de Aristides Theodoro?”, referindo-se à sua cara de bravo, ao seu jeito agressivo de reagir às perguntas imbecis e às suas respostas espinafradas. Eis um trecho de seu artigo:
“Áspero e aparentemente intratável, como o cacto de Manuel Bandeira. Mas isso não passa de uma máscara. Logo que vencemos este aspecto agressivo de sua personalidade, descobrimos que, por trás da carapaça rude, esconde-se um homem extremamente jovial, apaixonado e entusiasmado pela literatura.”
E ainda:
“A falsa agressividade é uma defesa que adquiriu com o passar do tempo, face às perguntas estúpidas que lhe são dirigidas a toda hora e durante todo o dia, por transeuntes mal-educados que ousam interromper os seus agradáveis bate-papos sobre aquilo de que mais gosta, isto é, literatura.”
Entretanto, esse mesmo homem relaxa, como se estivesse no divã de um analista, ao encontrar-se com pessoas que, conforme ele afirma, “falam a mesma língua” — ou seja, falam de literatura ou de qualquer outro assunto de forma democrática, sem a chatice cacete dos “donos da verdade” e dos “monopolizadores” da conversa, que transformam diálogos em tristes e enjoativos monólogos.
Esse mesmo homem sente-se “em sua casa”, rodeado de livros e muitos quadros, quando frequenta locais como O Alpharrabio – Livraria Espaço Cultura, por ele considerado “a Universidade Livre do ABC Paulista”, um desses lugares que nos engrandecem e que têm o condão de transformar o homem para melhor.
Aristides Theodoro nasceu em Utinga, no cerne da velha Bahia, “uma pequena cabeça de porco”, como são chamados os lugarejos de pouca expressão, nos cafundós dos brasis. Bem jovem, veio para São Paulo e, como todo nordestino — somando a desvantagem da cor e da pobreza — enfrentou preconceitos conhecidos, como se fosse um estrangeiro dentro da própria terra.
No começo, a família aportou no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Posteriormente, o pai adquiriu uma propriedade em Mauá, a provinciana cidade da porcelana. Ali foram lançadas as primeiras sementes da literatura no solo fértil do rapazinho Aristides Theodoro.
Sem energia elétrica, à luz de lamparina, lia todas as noites, até altas horas, para a mãe Don’Ana, mulher sem letras, A Pérola, de Steinbeck, O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, e, sobretudo, a Bíblia — carro-chefe da casa, de pais protestantes.
Ouvia os “causos” fantásticos, origens de seus contos, narrados pelo pai, o rabugento Cosme Theodoro: histórias de onça “montó” (mão torta), presepadas de valentões, estórias de tabaréus em dias de feira, fantasmas, almas penadas, lobisomem, mula-sem-cabeça, secas e humilhações.
O jovem Aristides Theodoro não se contentava em ler e armazenar livros comprados com sacrifício, às expensas do pão de cada dia. Queria ver o resultado de suas imaginações mirabolantes estampado nas letrinhas miúdas da imprensa.
Para perseguir isso, teve de lutar e engolir muito sapo. De tanto insistir, conseguiu publicar, pela primeira vez, um poema de cunho religioso no tablóide O Colibri, que ajudou a fundar, nos primórdios dos anos sessenta.
Desde então, passou a escrever sobre autores e livros na Gazeta de Santo André e, esporadicamente, ocupou espaço na coluna “A Baronesa”, explorada pelo amigo Castelo Hanssen, no jornal A Vanguarda e, mais tarde, em A Tribuna Popular, ambos de Santo André.
Desse ponto, partiu para publicações poéticas nas antologias do Colégio Brasileiro de Poetas, de Mauá — do qual é sócio fundador — e nos Cadernos Negros, do Grupo Quilomboje (SP). Resenha livros para a Voz de Mauá e para o Jornal da Manhã (SP).
Aristides publicou os seguintes livros:
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Dandaluanda (1982)
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O Poeta Passeia por São Paulo num Sábado à Tarde (1991)
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Poeminha sem Realismo para Ruth (1993)
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Não Contribuirei com um só Óbulo para a Construção do Novo Mundo – edição resumidíssima (1997)
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Como Preparar um Diabo Velho em Forno Brando (1993), em parceria com Iracema M. Régis
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Estórias de Curiapeba (1996)
Tem ainda dois contos publicados no Cadernos Negros 20, do Quilomboje (1997).
Eis aí Aristides Theodoro — sessentão que, com extrema jovialidade, trabalha com afinco em prol das letras nacionais.
Jornal da Manhã, 27/11/1997
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