O Processo de Ocupação do Município de Mauá: a metropolização vista da periferia
O estudo demonstra que, ao contrário da ideia de uma ocupação totalmente desordenada, grande parte do território de Mauá foi formada por loteamentos aprovados pela prefeitura. As irregularidades surgiram posteriormente, com o desmembramento de terrenos e novas ocupações. Além disso, a pesquisa destaca que Mauá desempenhou um papel importante no processo de metropolização paulista, deixando de ser vista apenas como uma cidade periférica ou "cidade-dormitório" para ser reconhecida como agente ativo na formação da Região Metropolitana de São Paulo e na construção de sua própria identidade urbana.
Por Redação
O município de Mauá, localizado na região do Grande ABC Paulista, possui uma história marcada pela intensa expansão urbana e pela influência direta do processo de metropolização da cidade de São Paulo. Ao longo do século XX, a cidade deixou de ser uma área predominantemente rural para se consolidar como um importante centro urbano e industrial, resultado da expansão populacional, da abertura de loteamentos e da integração com a Região Metropolitana de São Paulo.
O desenvolvimento de Mauá esteve diretamente relacionado à ocupação de antigas fazendas que, a partir da década de 1920, passaram a ser divididas em glebas destinadas à formação de bairros. A chegada da ferrovia e o crescimento industrial do ABC favoreceram o aumento da população e estimularam a criação de novos loteamentos, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, período em que ocorreu o maior crescimento territorial do município.
Segundo a pesquisa de Jayne Nunes, a década de 1960 foi decisiva para a configuração urbana de Mauá. Nesse período, dezenas de loteamentos foram aprovados pela prefeitura, atendendo à crescente demanda habitacional provocada pela expansão metropolitana. Além disso, a facilidade de compra dos terrenos, muitas vezes com financiamento acessível e incentivos oferecidos pelos loteadores, permitiu que milhares de famílias de baixa renda adquirissem seus lotes e construíssem suas próprias moradias.
Os dados populacionais reforçam essa transformação. Em 1960, Mauá possuía aproximadamente 28 mil habitantes. Apenas dez anos depois, a população ultrapassava 102 mil moradores, representando um crescimento superior a 250%. Em 1980, esse número já chegava a mais de 205 mil habitantes, evidenciando a velocidade da urbanização e da expansão periférica da cidade.
Ao contrário da ideia amplamente difundida de que Mauá teria surgido apenas por meio de ocupações irregulares, a pesquisa demonstra que grande parte do território foi inicialmente organizada por loteamentos legalmente aprovados pelo poder público. Os processos de irregularidade ocorreram posteriormente, principalmente com o desmembramento de terrenos e novas subdivisões realizadas nas décadas seguintes, contribuindo para a imagem de crescimento urbano desordenado.
Outro aspecto importante apontado pelo estudo é que a ocupação da cidade não esteve concentrada nas mãos de poucos proprietários. Os loteamentos pertenciam a diversos investidores particulares, empresas imobiliárias e companhias industriais, revelando uma distribuição pulverizada da propriedade fundiária. Esse cenário contribuiu para uma expansão urbana diversificada e para a formação de diferentes bairros ao longo do município.
A autora também destaca que compreender a história da ocupação de Mauá significa ampliar a visão sobre o próprio processo de metropolização paulista. Em vez de enxergar o município apenas como uma "cidade-dormitório", a pesquisa propõe reconhecê-lo como protagonista na construção da Região Metropolitana de São Paulo, valorizando a memória dos moradores, a formação dos bairros e a identidade urbana construída ao longo das décadas.
Dessa forma, o estudo demonstra que a ocupação de Mauá foi resultado de uma combinação entre crescimento populacional, expansão dos loteamentos, desenvolvimento industrial e transformações econômicas e sociais que moldaram a cidade. A análise da periferia permite compreender melhor como ocorreu a formação da metrópole paulista, evidenciando que municípios como Mauá desempenharam papel fundamental nesse processo histórico.
Referências bibliográficas
-
ALMEIDA, Cecília Cardoso Teixeira de. O Grande ABC Paulista: o fetichismo da região. São Paulo: USP, 2008.
-
BONDUKI, Nabil. Origens da Habitação Popular no Brasil. 4. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
-
LANGENBUCH, Juergen Richard. A Estruturação da Grande São Paulo. Rio de Janeiro: IBGE, 1971.
-
MEDICI, Ademir. De Pilar a Mauá. Mauá: Prefeitura do Município de Mauá, 1986.
-
NUNES, Jayne. O processo de ocupação do Município de Mauá: a metropolização vista da periferia. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).
Apoie o Mauá Memória
Sua colaboração nos ajuda a manter viva a história de Mauá
💳 Contribua via PIX
Deixe 0,00 para gerar um código com valor em aberto









