Quando fé e luta operária se encontraram em Mauá: a história da Juventude Operária Católica
Ao longo dos anos 1950 e 1960, o movimento se envolveu diretamente em conflitos sociais e políticos. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 1959, quando a Prefeitura decidiu desapropriar o terreno da colônia para a construção de um hospital.
Pouca gente imagina, mas Mauá foi palco de uma das experiências mais marcantes da relação entre fé, trabalho e mobilização social no Brasil. A Juventude Operária Católica (JOC), movimento internacional fundado em 1923 pelo padre belga Joseph Cardijn, encontrou na cidade um território fértil para colocar em prática sua proposta: formar jovens trabalhadores conscientes de seus direitos e preparados para transformar a própria realidade.
A JOC chegou ao Brasil nos anos 1930 e, ainda antes de sua oficialização nacional em 1948, já mantinha forte presença em Mauá. O distrito, então ligado a Santo André, chamava atenção pelo clima, pelas matas e pelo potencial de acolher encontros, retiros espirituais e cursos profissionalizantes voltados à juventude operária. Foi ali que se instalou a colônia da JOC, espaço que se tornaria referência para militantes de todo o estado de São Paulo.
Mauá chegou a receber a visita do próprio Cardijn, fundador do movimento, que acompanhou de perto as atividades realizadas na cidade. O local também abrigou obras do pintor Emeric Marcier, responsável pelos murais da capela da colônia, reforçando a dimensão cultural e simbólica do espaço.
Mas a presença da JOC em Mauá não se limitou à formação espiritual. Ao longo dos anos 1950 e 1960, o movimento se envolveu diretamente em conflitos sociais e políticos. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 1959, quando a Prefeitura decidiu desapropriar o terreno da colônia para a construção de um hospital. A medida gerou forte reação dos jocistas, que organizaram passeatas, distribuíram panfletos e denunciaram o que chamavam de uso político da obra pública.
A frase estampada nos protestos ecoou pela cidade: “Hospital se constrói para os pobres, e não se rouba a casa dos pobres para fazer carreira política.” O conflito mobilizou autoridades, dividiu opiniões da população local e chegou a tensionar a relação entre o poder público e a Igreja Católica, especialmente pela atuação do então bispo de Santo André, Dom Jorge Marcos de Oliveira, defensor da aproximação da Igreja com as questões sociais da região.
Nos bairros mais carentes, como o Jardim Zaíra, a atuação da JOC ganhou ainda mais força. Em parceria com lideranças comunitárias, padres e jovens operários organizaram mutirões, ajudaram na construção de igrejas, criaram comissões populares e pressionaram o poder público por melhorias básicas, como saneamento, iluminação e condições dignas de moradia. Mais do que evangelização, tratava-se de viver o cotidiano da população e atuar lado a lado com ela.
O golpe militar de 1964 interrompeu brutalmente esse processo. A JOC passou a ser perseguida em todo o país, acusada de simpatias comunistas. Muitos de seus membros foram presos, torturados ou forçados a abandonar a militância. Em poucos anos, o movimento praticamente desapareceu do cenário nacional.
Somente no final da década de 1970, com a abertura política e a retomada das lutas sindicais no ABC, a Juventude Operária Católica voltou a se reorganizar em Mauá. Desde então, segue atuando principalmente no Jardim Zaíra, com cursos pré-vestibulares e ações sociais voltadas à juventude.
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