Quando Mauá apagava as luzes: a história dos cinemas e dos sons da cidade
O século XX ficou marcado como o tempo das imagens e dos sons. Do rádio ao cinema, essas novas tecnologias democratizaram o acesso à cultura, antes restrita às elites.
Antes da televisão, da internet e das telas portáteis, Mauá já vivia intensamente o universo das imagens e dos sons. O cinema, ao lado da música, ocupava um lugar central na vida cultural da cidade, funcionando como espaço de encontro, lazer e imaginação coletiva. Era ali que a população se reunia para rir, se emocionar e, por algumas horas, viajar para outros mundos.
O século XX ficou marcado como o tempo das imagens e dos sons. Do rádio ao cinema, essas novas tecnologias democratizaram o acesso à cultura, antes restrita às elites. Em Mauá, esse processo ganhou contornos muito próprios, revelando uma cidade que, mesmo pequena, acompanhava os movimentos culturais de seu tempo.
A história do cinema em Mauá começa ainda nos anos 1920. O primeiro registro é do Cine Ideal, que funcionava próximo à atual Rua Vitorino Dell’Antônia. Seu proprietário, Isaltino Celestino dos Santos, enfrentou dificuldades financeiras, pois o hábito de frequentar sessões de cinema ainda não fazia parte do cotidiano da população. Mesmo assim, insistiu em manter o espaço aberto aos finais de semana, acreditando no valor do cinema como forma de diversão e convivência social.
Na década seguinte, novas iniciativas surgiram. Entre 1937 e 1938, o Cine OPA exibia filmes no salão da Associação Atlética Industrial, improvisando cadeiras e bancos para receber o público. As sessões acompanhavam a programação dos grandes cinemas de São Paulo, com comédias de Carlitos, épicos como Ben Hur e clássicos como O Corcunda de Notre Dame. Em um período de transição entre o cinema mudo e o falado, músicos locais tocavam ao vivo durante as exibições, criando uma experiência única, em que imagem e música se fundiam.
Outras formas alternativas de exibição também marcaram época. Moradores exibiam filmes em projetores domésticos, sessões eram organizadas pelo SESI e até os muros das casas se transformavam em telas improvisadas. A Igreja também entrou nesse circuito cultural: o padre Antônio Negri promovia sessões no salão da Igreja Imaculada Conceição, no famoso “Cineminha do Padre”, cuja renda ajudava na construção da atual matriz. Para as crianças assíduas à catequese, o ingresso era gratuito — um gesto simples que marcou gerações.
Um divisor de águas na história cultural de Mauá foi a inauguração do Cine Santa Cecília, em 27 de agosto de 1949. Construído especialmente para funcionar como cinema, o espaço tornou-se referência na cidade. Com capacidade para quase 1.400 pessoas, poltronas de madeira maciça e equipamentos de ponta para a época, o Santa Cecília consolidou o cinema como um dos principais centros culturais do município.
Mais do que exibir filmes, o Cine Santa Cecília foi palco de formaturas, peças de teatro, shows musicais e bailes de carnaval. As cadeiras eram retiradas, o palco ganhava vida e o cinema se transformava em salão de festa. As matinês de domingo, os filmes de Mazzaropi, Oscarito e Carmen Miranda, os faroestes e o clássico ritual da exibição de A Paixão de Cristo na Sexta-feira Santa fazem parte da memória afetiva de muitos moradores.
A trajetória dos cinemas de Mauá revela muito mais do que a história de salas de exibição. Ela conta como a cidade construiu seus espaços de convivência, lazer e cultura, onde imagens, sons e pessoas se encontravam. Uma época em que apagar as luzes do cinema significava acender sonhos coletivos — e em que a cultura ocupava, literalmente, o centro da cidade.
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